À medida que a licença maternidade de Cicília chegava ao
fim, aproximava-se o momento em que eu teria de encarar o grande desafio:
passar a noite sozinho com Arthur. Até ali tinha sido fácil. Chorou, peito;
chorou, peito. Mas eu não nunca tive leite, então iria ter que me virar.
Ela trabalhava em sistema de plantão. O que significava
dizer que seria a noite toda apenas eu e ele. Com o passar dos dias a apreensão
aumentava. Como seria? E se chorasse? E se tivesse fome? E se quisesse leite de
peito?
Quando chegou o dia, medo.
Saí do trabalho, peguei Arthur na casa da avó e passei na
maternidade. O negócio era encher o menino de leite até a tampa e rezar para
ele dormir a noite toda. Depois de mamar e cair no sono, coloquei com cuidado
no bebê conforto. Olhei: dormia.
Segui para casa. Com cuidado, evitando os buracos e as
curvas bruscas para não acordá-lo.
O negócio era: tirar do carro, subir as escadas, colocar no
berço e torcer para ele dormir a noite toda. Simples? Não. Mas tinha que
tentar. Minha noite de sono dependia do sucesso da empreitada. E continuei meu
caminho.
Qualquer barulho vindo do banco de trás me fazia checar se
estava tudo certo. Dormia.
Finalmente cheguei no prédio. Desci do carro, tirei o bebê
conforto (dica: o balançado ajuda a manter o sono) e subi as escadas. Mesmo com
a luz dos corredores, tudo tranqüilo. Não acordou. Abri a porta e entrei em
casa. Com cuidado, levei o bebê conforto para o quarto. E aí apareceu a grande
questão: tirar ou deixar onde estava?
Se estava tão bem ali, porque atrapalhar o sono dele? Mas ao
mesmo tempo a consciência dizia que seria mais legal de minha parte se eu o colocasse no berço. E decidi tentar. Com toda a delicadeza do mundo e o medo em
cada fio de cabelo, retirei.
Fiz um psssssssss no ouvido assim que escutei os primeiros
resmungos. “Devia ter deixado lá. Vai dar errado. Vou passar a noite acordado”.
Dormiu. Fui até o berço e coloquei. Mais um pssssss e finalmente senti que
tinha terminado. Uma gota de suor escorreu pelo meu rosto.
Após um instante de contemplação daquela coisinha linda
dormindo bem tranqüila, tomei uma decisão: abri na carreira para tomar banho,
engolir alguma coisa e dormir. Afinal de contas, aquela era uma bomba relógio
que poderia disparar a qualquer momento.

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