quarta-feira, 12 de junho de 2013

A outra

Por mais que a gente tivesse preparado Arthur para o nascimento de Laís, eu sabia mais ou menos o que se passava na cabeça dele. Por ter vivido situação parecida (a diferença é que eu tinha 5 anos quando Andréa nasceu), tinha noção de que, naquela momento, ela era nada mais que a “Outra”.

E pensa bem: você é o centro das atenções, quando de repente, aparece uma pirralha, que não mede meio metro e todo mundo quer ver. Não é fácil digerir.

“Laís nasceu. Olha só o que ela trouxe pra você. Um presente”. Como se dentro do útero tivesse uma loja da Ri Happy.

E foi dentro do esperado. De início, a rejeição. A gente botava no colo, ele meio que afastava, fazia cara de contrariado e pedia para tirar. Botava para empurrar o carrinho, ele ia com a maior má vontade do mundo. Sempre com um olhar desconfiado.

Mas criança esquece logo das coisas. É uma vantagem que elas têm sobre os adultos. Não guardam rancor. E bastaram apenas uns dias para Arthur deixar para trás a ranzinza e tomar conta da irmãzinha.

Bastava perguntar: “quem é essa menina linda?”. “Minha imãzinha”. E com muito orgulho.

terça-feira, 26 de março de 2013

A primeira vez no teatro


Sempre pensei em incentivar meus filhos com relação à cultura. Ler, freqüentar teatros, cinemas, museus, essas coisas. E depois que Arthur fez 2 anos, achei que o momento de levá-lo ao teatro estava chegando. E a oportunidade surgiu quando anunciaram o show da Galinha Pintadinha em João Pessoa.

Montei um verdadeiro arsenal de guerra (fralda, água, biscoito, roupa reserva, pomada) arrumei Arthur e fomos para o Teatro Santa Roza. Muitas crianças, papais, mamães, todos loucos para ver o espetáculo.

Vale destacar que Kalessa apresentou a Galinha Pintadinha para o afilhado. E desde o início ele ficou louco. E quem não gostaria? Estavam lá todas as músicas da nossa infância: Pintinho Amarelinho, Pombinha Branca, O Sapo não Lava o Pé e por aí vai.

Já que ele era fã, seria o máximo. Um dia que com certeza o deixaria com vontade de voltar ao teatro outras vezes.

Entramos e ficamos nas primeiras fileiras. As pessoas iam chegando.  “Vai começar a Galinha Pintadinha. Vai ser ali em cima. Não é legal?”. Ele apenas olhava. Não quis sentar na cadeira. Ficou no meu colo.

De repente, o início: “BOA TARDE CRIANÇADA. VAI COMEÇAR O ESPETÁCULO A GALINHA PINTADINHA”. Estávamos ao lado de um alto-falante. Arthur pediu para sair. “Não, vamos ficar. Vai começar. Olha só”.

Foi um dos maiores erros da minha vida. Quando Mariana (aquela mesmo da música que conta até 10) entrou no palco, eu senti um frio na espinha de medo. Eita Mariana feia da mulinga. Só tinha cabeça. Se eu tive medo, avalie Arthur. Ficou aos berros.

Na mesma hora levantei e fui lá para a bilheteria. Só quando não estávamos mais vendo o palco foi que se acalmou. Foram 10 minutos de psicologia para parar de chorar. Aos poucos fui subindo a escada para ver o palco. Um degrau. Depois dois. Três. Quatro. Ficamos próximos de umas cadeiras, na última fileira.

Ainda em pé, percebi um ser se aproximando. Ao olhar era a Barata. A da música. Tremi todo só de pensar no choro de Arthur. Mas não aconteceu. Ele estava realmente mais calmo. Depois de um bom tempo consegui convencê-lo a sentar. Acredito que vi ainda mais cinco ou dez minutos de espetáculo e acabou.

Fomos embora. A experiência não tinha sido bem como havia imaginado, mas ele conheceu um teatro. E saiu de lá com a lembrança mais forte que teve desse momento: “Maliana fêa da mulinga né Papai?”


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A cueca


Ter um filho também é saber descartar. Não ele, claro. Mas alguns objetos.

Estávamos de férias (tecnicamente, Cicília estava de licença maternidade). Passamos então alguns dias na casa de Tia Andréa em Jaboatão. Uma noite resolvemos jantar no Laça Burguer.

Fizemos os pedidos, cada um com seu prato. Laça Coração, Laça Chiken, Laça Cheese, Laça alguma coisa e bebidas. Fernando estava cabisbaixo, um pouco triste após ter negado o pedido de comer um Beirute (aquele sanduíche que alimenta 20 pessoas esfomeadas).

Arthur andava pela lanchonete, brincando, conversando e... “Esse menino ta quieto demais ali no canto. Deve estar fazendo alguma coisa”. Observei os sintomas: rosto tendendo ao roxo, veias à mostra, barriga levemente inclinada para a frente. Se ainda tinha alguma dúvida foi dissipada com a confissão: “Papai, cocô”.

Quando se percebe que seu filho fez algo desse tipo em um local público e ainda faz questão de falar, você entra em desespero. É preciso esconder o menino e resolver o problema antes que todos morram por inanição.

Corri para o banheiro com ele nos braços e tranquei a porta. Olhei para ele. Ele sorriu. “Vamos tirar a bermudinha?”. Ao tirar a bermuda percebi o tamanho do problema.

Estávamos em uma fase de tentar tirar a fralda, portanto, ele tinha apenas a cueca para segurar aquele negócio todo. E estava cheia. Muita cheia. Fiz cálculos mentais para tentar retirar a cueca sem sujar todo o banheiro. Já disse aqui antes que sou Jornalista. Claro que os cálculos deram errado.

Ao baixar a cueca veio tudo junto. O desespero foi aumentando. Aquilo escorria pela perna e eu sem saber o que fazer. Retirei a cueca e por um instante fiquei em dúvida: “O que faço agora? Lavo onde?”. E a solução veio rápida e prática.

Com o pé, apertei o pedal da lixeira e joguei a cueca dentro. Para nunca mais vê-la na minha vida. Peguei papel toalha suficiente para criar uma múmia e limpei Arthur. Recoloquei a bermuda (por mais incrível que pareça estava limpa) e saímos.

Neste dia aprendi que não devemos comprar cuecas caras para nossos filhos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Nascimento de Laís - Final


A única pergunta que vinha na minha cabeça era: “porque dessa vez me colocaram pra ver tudo? E se eu desmaiar?”. Lembro que com Arthur, eu fiquei exatamente atrás do pano, sem ver nada. Tudo bem que depois fiquei pulando para tentar ver alguma coisa. Mas desta vez eu estava em diagonal. Vi tudo que tinha para ver.

E ouvi a conversa também. “Soubesse de Fulana?” “Mulher, soube. Não acreditei”. E eu lá. Na expectativa. Esperei. E depois do bate-papo sobre as vidas de fulana, beltrana e quem lá fosse, saiu.

Uma coisinha minúscula, branquinha e que chorava.

Mesmo sendo a segunda vez que sentia isso, não dá para descrever. É um amor que não se mede. É Deus sentando do seu lado e dizendo: “Estou lhe entregando aos seus cuidados porque confio em você. Cuide bem!”.

São milhares de pensamentos ao mesmo tempo. Um turbilhão de idéias. Não dá para pensar direito em nada. Percebi que Kalessa estava na sala (como havia sido há dois anos). Nem lembro de onde saiu. De forma automática, comecei a tirar fotos.

E fiquei naquela coisa meio sem saber o que fazer. De repente, a médica olha pra mim e me oferece minha filha. Peguei-a com todo o cuidado do mundo. Aconcheguei em meus braços e olhei. Algo aconteceu com o mundo naquele momento.

Era como se tudo tivesse parado. Nada mais tinha importância. O resto do mundo parecia sem importância quando comparados com aquele ser pequeno e indefeso. Demorou alguns segundos (que pareceram horas) para que eu voltasse a pensar em algo.

E quando isso aconteceu, cheguei próximo dos ouvidos dela e cantarolei como tinha feito com Arthur: “Cazá, Cazá, Cazá, Cazá, Cazá, a Turma é mesmo boa, é mesmo da Fuzarca, Sport, Sport, Sport”. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O nascimento de Laís – Parte 3


Entrar pela emergência da Unimed já não é uma coisa que acalme o espírito. Mas depois de sermos atendidos rapidamente, subimos para o apartamento. Cicília foi atendida pela médica plantonista, que ligou para Dra. Roseane, que finalmente atendeu o danado do telefone.

Ficamos no aguardo.

Se você já viu alguém que ama sentindo dor e não poder fazer nada sabe como é difícil. A cada intervalo de alguns minutos, Cicília sentia as contrações. E era careta, gemido, respiração travada.

Quando Dra. Roseane chegou foi rápido. Descemos. Eu, assim como da última vez, separado. Tive que passar antes pela parte em que se pega uma muda de roupa para assistir à cirurgia. Já experiente (clique aqui)  e sabendo das falhas de segurança da Unimed, economizei uns 50 reais.

Passei pelos corredores, mostrando que sabia onde iria, cheguei no guichê e pedi: “me dá um saco de roupa”. Mais uma vez não me pediram nada. Fui ao vestiário, vesti aquele negócio que parece um pijama e fui para o bloco cirúrgico.

Cicília estava dentro da sala. E uma baixinha lá me barrou. Fechou a porta e disse que eu só poderia entrar quando fosse começar. E ficaram lá passando remédio nela, dando anestesia e etc. E eu do lado de fora, pulando para olhar pela janelinha da porta.

Cicília queria que eu entrasse. E alguém disse que só entraria depois que estivesse pronto para começar. Foi quando a baixinha disse: “é melhor mandar entrar logo. Ele tá ali pulando na frente da janela pra olhar mesmo”.

Entrei e fui para meu lugarzinho sem tocar em nada. Sentei e esperei.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O nascimento de Laís – Parte 2


Quer ver a personificação do desespero? Ligue para seu marido e diga: “vai nascer”.

Depois de sair com toda a gota da Ecoclínica, corri para a casa de Dona Maria José. Parei o carro, abri o portão e corri para ver Cicília. “E aí, vamos? Tá tudo pronto?”. Aí ela olha para mim com toda a calma do mundo e faz: “pode ir se ajeitar, tomar banho, trocar de roupa que as contrações estão só começando”.

Não sei de onde se tira tanta tranqüilidade. Eu continuava acelerado. Fiz o que ela pediu e fiquei pronto para sair. De vez em quando passava por ela dentro de casa e via a cara de sofrimento dela. E sem pressa.

E eu de um lado para o outro dentro de casa. E tentando falar com Dra Roseane. Só chamava. Com é que uma obstetra não atende o danado do telefone? Sabendo que tem uma paciente prestes a ter menino?

Depois do que pareceram horas, Cicília terminou de se ajeitar (maquiagem, cabelo, unhas) e fomos para a Unimed. De novo, Luedva a postos. Como dois anos antes. Desta vez não fomos pela recepção. Mas pela emergência.

Aí a gente disse o que era para a atendente indicar uma pulseira que diga a gravidade da situação. “Hômi, dê logo uma vermelha. Ela tá com contração”. Até que foi rápido. Chamou o maqueiro, que já veio com uma cadeira de rodas. Subimos.

E nada de Dra Roseane atender o telefone.

A médica do plantão foi quem fez o atendimento. Disse que tinha que ser cesárea. Até então Cicília tinha esperanças de ser normal. Só quando a médica ligou foi que Dra Roseane atendeu. Fomos encaminhados para o quarto e ficamos no aguardo. Até a bendita obstetra chegar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O nascimento de Laís – parte 1


Reta final de gravidez é a coisa mais estressante que se pode viver. Principalmente para o pai. Por mais que a mãe esteja com a barriga enorme, andando igual uma pata, com pés inchados e cheia de dor na coluna. Ainda é mais para o pai.

É esperar, 24 horas por dia, a hora que ela vai dizer: “corre que a bolsa estourou”. E quando está fora de casa então é ainda pior. A cada cinco minutos checando os dois celulares, twitter e atualização do facebook para saber se tem novidades.

Mas, assim como aconteceu com Arthur, Laís esperou até o último dia. Com um detalhe: dessa vez Cicília sentiu as contrações.

Lembro de ter voltado do almoço para a TV e logo depois ela me ligou. Achava (você leu bem: achava) que Laís iria nascer. Pediu que ligasse para Dra. Roseane e ainda fosse pegar um exame na Ecoclínica. Era uma última ultrassom.

Corri para lá. Cheguei, pedi, esperei, sentei, levantei, pedi de novo, esperei de novo, sentei de novo, levantei de novo e perguntei: “Vai ter condições de entregar isso hoje, como vocês informaram?”

“Falta só uma assinatura, acho que fica pronto amanhã”.

“Minha filha é o seguinte: minha esposa está tendo contrações e a menina está para nascer. Se não ficar pronta agora, você pode botar esse negócio onde você quiser”. Vamos combinar: exigir paciência de um pai que está prestes a receber um filho é demais. Em menos de cinco minutos chegou o tal exame com assinatura de alguém.

Em meio a tudo isso, eu tentava ligar para Dra. Roseane. O telefone só fazia chamar. E o desespero só aumentava. “Como é que a obstetra não atende a mulesta do telefone????”. E corri para pegar Cicília na casa da mãe.